Continuidade de negócio
Como Construir um Modelo de Análise de Impacto no Negócio (BIA) e Plano de Continuidade (PCN) Simplificado e Adaptado à Realidade da Saúde
Por Noerci Battistella · · 12 min de leitura

Este artigo foi originalmente elaborado para submissão a um periódico científico. No entanto há, os longos prazos de avaliação — que podem chegar a um ano — e as exigências editoriais muitas vezes desmotivam a publicação formal. Por isso, decidi compartilhar aqui no LinkedIn, onde acredito que o conteúdo poderá ser útil a muitos profissionais da saúde e de tecnologia interessados em aprofundar seus conhecimentos sobre o tema.
Elaborar um Plano de Continuidade de Negócio (PCN) e um modelo de BIA (Business Impact Analysis) "Padrão banco" é um desafio para qualquer instituição de saúde, mesmo nas de grande porte. A depender do contexto, isso costuma exigir investimento elevado e apoio de consultorias externas — o que muitas vezes é um limitador para a execução.
Neste artigo, compartilho como conduzi a estruturação de um modelo funcional de BIA e PCN com recursos internos, respeitando as boas práticas da literatura, garantindo valor na entrega da análise, mas adaptando à realidade operacional e orçamentária do negócio.
Por que criar um modelo próprio de BIA e Continuidade
A motivação principal foi a necessidade de garantir resiliência operacional em caso de incidentes — protegendo processos críticos, reduzindo riscos e assegurando a continuidade dos serviços essenciais.
O caminho escolhido envolveu: embasamento técnico, uso de ferramentas acessíveis e capacitação de equipe interna para liderar as etapas da análise e construção do plano.
1 Introdução
Com o objetivo de operar continuamente e limitar eventuais perdas no caso de incidentes, as empresas constroem planos de continuidade de negócios (PCN) e planos de recuperação em caso de desastres. Esses planos devem ser revisados e atualizados constantemente, refletindo as mudanças que ocorrem nos pilares de pessoas, processos e tecnologias — planejando, assim, o funcionamento em situações atípicas. (Brás & Guerreiro, 2016)
Existem inúmeros frameworks e métodos publicados com foco na construção de planos de continuidade. Entre eles, destaca-se a ISO 22301, cujo escopo é definir requisitos para planejamento, implementação, operação, monitoramento, revisão e melhoria contínua de um sistema de gestão documentado, com o objetivo de proteger e/ou reduzir a probabilidade de ocorrência de incidentes disruptivos. Essa norma orienta a preparação, resposta e recuperação diante de incidentes. Os dois principais elementos desse processo são a Análise de Impacto no Negócio (BIA – Business Impact Analysis) e a análise de riscos. (ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas, 2013)
A BIA pode ser descrita como uma atividade que examina processos organizacionais, identifica os mais críticos, compreende as interdependências internas e externas, define requisitos e aponta áreas de alto risco — tudo isso por meio de técnicas de coleta e análise de dados. Seu uso pode ter diversos propósitos, mas em geral está associado ao suporte à gestão estratégica da organização. No entanto, sua aplicação enfrenta barreiras como: falta de estrutura ou política para conduzir a análise; ausência de método formal; inexistência de um processo de gestão e aceite de risco; ou ainda a ausência de responsabilidade organizacional com a resiliência do negócio. (Sikdar, 2017)
O foco da BIA deve abranger pessoas, processos e tecnologias. As informações sobre funções críticas são coletadas diretamente com a operação, e o modelo deve ser personalizado de acordo com o escopo da organização, sua missão, visão, valores e estratégia de gestão. As três etapas clássicas da BIA são: coleta de dados, análise dos dados e elaboração do relatório final. (Sikdar, 2017)
Como alternativa aos mapeamentos tradicionais de processos, muitos negócios têm adotado os chamados fluxos de valor — representações de ponta a ponta de como o valor é entregue a uma parte interessada. (Ulrich & Kuehn, 2015) Por exemplo: em um hospital, um paciente que busca tratamento percebe valor em aspectos diferentes de um colaborador ou médico. O mesmo processo pode gerar diferentes fluxos de valor, dependendo de quem é o stakeholder considerado.
Para essa construção, diversas técnicas de coleta de dados primários podem ser aplicadas por um facilitador junto à operação. Além disso, a organização dispõe de bases secundárias importantes: ERPs, bancos de dados, planilhas e documentos internos. Entre as técnicas de coleta mais utilizadas estão: questionários, entrevistas individuais e em grupo, análise de documentos, workshops e o método Delphi. (Sikdar, 2017)
O método Delphi é uma técnica de construção de consenso por meio de várias rodadas de questionários com especialistas, com compartilhamento das respostas entre os participantes. A versão adaptada que utilizei é adequada para aplicação via formulários digitais. (Batistela Junior et al., 2022)
2 Metodologia Aplicada – Passo a Passo
A construção do modelo de Análise de Impacto no Negócio - BIA (Busines Impact Analysis) e Plano de Continuidade de Negócio adaptado a um Hospital de Grande Porte e Alta Complexidade passou por 3 fases, sendo elas divididas em: Revisão bibliométrica da literatura sobre Análise de Impacto no Negócio; Definição de Metodologia; Execução de Piloto.
Revisão bibliométrica da literatura sobre análise de impacto no negócio
A busca por documentos sobre o tópico Análise de Impacto no Negócio ocorreu na plataforma SCOPUS, definida por critério de conveniência por ser uma base paga disponível na instituição onde o trabalho foi elaborado. Além disso a plataforma permite a extração de dados no formato BibTex.
O fomato BibTex permite a rápida análise bibliométrica dos resultados da busca através de interface gráfica derivada do uso de linguagem R, RStudio e biblioteca Bibliometrix. (Batistela Junior, Macorin de Azevedo, Formigoni, & Manoel Souza das Neves, 2022)
A palavra chave para busca foi definida em língua inglesa, consultada na forma de string: “Business Impact Analysis”
O portal Scopus foi (https://www.scopus.com) foi acessado e a palavra-chave “Business Impact Analysis” foi digitada e a opção Search foi aplicada. Na tela de resultados foi selecionada a opção All (todos) e a opção BibTeX export foi aplicada clicando em seguida em Export.
O arquivo extraído com extensão .bib foi então carregado na interface gráfica biblioshiny da biblioteca bibliometrix para R no R Studio. Os resultados da pesquisa serão apresentados na seção resultados.
Definição de metodologia
Foi realizada a leitura dos documentos encontrados na busca na base Scopus para entendimento metodológico da construção e aplicação da BIA.
O objetivo da BIA foi definido pelo diretor de tecnologia da informação, baseando-se no negócio, seu escopo de atuação, missão, visão, valores e estratégia de gestão. Os critérios norteadores aplicados a construção da metodologia foram: Garantir o entendimento de processos críticos, definir recursos mínimos, definir objetivo do tempo de recuperação (RTO), definir ponto objetivo de recuperação (POR), poder ser executado pelas equipes internas sem a necessidade de contratação de consultoria externa, ter um tempo de execução menor que o processo atual executado por consultoria externa.
Alguns colaboradores do time de tecnologia da informação foram matriculados e receberam treinamento de 15 horas com consultoria externa sobre análise de impacto no negócio, plano de continuidade, plano de comunicação e plano de recuperação de desastre. Esses colaboradores foram então colocados em um grupo de trabalho com reuniões semanais de 1 hora para construção, validação e evolução do modelo.
Após a leitura dos documentos encontrados na busca o modelo inicial foi desenvolvido e apresentado aos gestores de tecnologia da informação da instituição. Os comentários sobre a metodologia foram ouvidos e ajustes no modelo inicial foram realizados.
Execução de piloto
A definição de onde executar o piloto foi feita por critério de conveniência, escolhendo uma unidade de negócio que já possuía fluxo de valor mapeado e onde os gerentes de áreas seriam mais receptivos a execução de um piloto.
3 Resultados
Os resultados do trabalho são apresentados abaixo divididos nas três fases: Revisão bibliométrica da literatura sobre Análise de Impacto no Negócio; Definição de Metodologia e Execução de Piloto.
Revisão bibliométrica da literatura sobre análise de impacto no negócio
O resultado a busca retornou 124 documentos publicados entre 1999 e 2022, sendo o resumo apresentado na Figura 1 – Resumo da busca apresentado no Bibliometrix - Biblioshiny.

Foi identificada uma tendência de crescimento de 8,83% ao ano nas publicações utilizando a palavra-chave “Business Impact Analysis” desde 1999, conforme apresentado na Figura 2 – Taxa de crescimento das publicações.

Entre as fontes mais relevantes sobre o tema podemos citar em primeiro lugar o Journal of Business Continuity & Emergency Planning com 11 publicações, conforme Figura 3 – Fonte mais importante.

Entre os documentos encontrados na busca alguns apresentam mais relevância em relação a quantidade de citações globais, conforme Figura 4 – Documentos mais citados

As palavras chave mais utilizadas pelos autores desses documentos foram: business impact analysis, risk asssestment, disaster planning e risk management. Conforme Figura 5 – Palavras mais utilizadas

E foram identificadas tendências nos tópicos relacionadas ao assunto business impact analysis nos últimos anos, conforme apresentado na Figura 6 – Tendência nos tópicos relacionadas ao assunto business impact analysis.

A análise temática sobre o assunto apresentou o resultado de que gerenciamento de riscos, BIA, investimento e otimização são temas básicos nessa área de estudo. Já temas como gerenciamento da informação, custos, computação em nuvem, análise de riscos e processos de negócio são temas motores, explorados atualmente pelos autores. E desenvolvimento de negócios e sustentabilidade são temas emergentes, com o tópico planejamento de recuperação de desastres entre o âmbito de tema de nicho e tema emergente. Conforme Figura 7 - Mapa temático.

Definição de metodologia
O objetivo da BIA foi inicialmente definido como:
Baseando-se em um BSC e no mapeamento do fluxo de valor do paciente, colaborador e médico em cada uma das unidades de negócios e diretorias de apoio, definir os sistemas críticos de TI onde a falha e/ou instabilidade podem ocasionar impactos nos pilares de sustentabilidade, processos, sociedade e aprendizado.
Com os objetivos secundários de:
- Estabelecer o plano de continuidade de negócio suportado por serviços de TI;
- Gerenciar e mitigar riscos operacionais;
- Estabelecer o RTO (Recovery Time Objective) Objetivo de Tempo para Recuperação;
- Estabelecer os RPO (Recovery Point Objective) Ponto Objetivo de Recuperação;
- Criticidade e prioridade de cada processo/serviço;
Cinco fases foram desenhadas, sendo elas: 1 Mapeamento de VSM; 2 Coleta de dados; 3 Validação de Interdependências; 4 Consolidação; 5 Elaboração da BIA. Conforme

Na fase 1 foi recuperado o mapeamento do fluxo de valor da unidade de negócio de pronto atendimento já realizada por consultoria externa.
Na fase 2 Coleta de dados através de formulários eletrônicos e validação através de método Delphi foi realizado um breve treinamento no primeiro dia para explicar os conceitos aos gestores convidados. Gestores das áreas de assistência, operação, governança clínica, hotelaria, nutrição, fisioterapia, farmácia e segurança foram convidados e estiveram presentes durante a aplicação do questionário. Nos dois primeiros dias foi compartilhado o formulário abaixo em formato eletrônico utilizando o Microsoft Forms, Figura 9 – Modelo de questionário aplicado. Onde os campos BU, VSM, Processo, Volumetria de operação e Ticket Médio já estavam preenchidos.

A agenda de três encontros ficou dividida em 1 primeiro encontro de 45 minutos, um segundo encontro de 30 minutos e um terceiro encontro de 1hora e 30 minutos conforme Figura 11 – Agenda dos três encontros.

A fase 3, validação das interdependências, ocorreu com alguns representantes de tecnologia da informação indicadores pelos gerentes de TI, onde para cada sistema identificado pelo negócio como utilizado em uma determinada etapa do processo todas as interdependências diretas e indiretas eram sinalizadas e coletadas em uma planilha. Foram consideradas interdependências diretas aquelas sem as quais o sistema não poderia ser utilizado e interdependências indiretas aquelas às quais não inviabilizavam o uso do sistema, mas posteriormente seriam necessários esforços para sincronização e atualização.

A fase 4, consolidação dos custos de queda, foi realizada pelo grupo de trabalho e incluída as respostas coletadas pelos gestores de negócios junto as interdependências.
O relatório BIA foi elaborado em uma tabela com a definição da unidade de negócio (BU), fluxo de valor (VSM), processo, RTO, RPO e prioridade de retorno em caso de incidentes e processo alternativo foi compartilhada com a área de negócios para validação, conforme Figura 12 – BIA Consolidada.

Execução de piloto
Os resultados da dinâmica aplicada não poderão ser compartilhados nesse trabalho pois tratam de informação estratégica e sigilosa para o negócio estudado e se compartilhado neste artigo poderia expor seu processo a riscos.
4 Discussão
A revisão bibliométrica do assunto permitiu um conhecimento adequado sobre os principais conceitos e aplicações relacionadas a análise de impacto do negócio. A base Scopus permitindo a extração no formato BibtTex de seus resultados, bem como as bibliotecas do RStudio que permitem a análise bibliométrica através de interface gráfica facilitaram muito o trabalho de pesquisa introdutória e análise bibliométrica.
A tendência de publicações sobre o tema se demonstra em ascensão, mas esse trabalho não conseguiu definir a motivação por trás desse aumento. Existindo apenas uma hipótese identificada no mapa de temas emergentes poderia ser explicada essa tendência, a palavra chave sustentabilidade, tema o qual tem sido recorrente em discussões de inúmeras empresas.
A construção de metodologia própria adequada às necessidades da instituição se demonstrou satisfatória, atingindo os objetivos propostos de poder ser executada com time interno, garantindo as informações pertinentes de uma BIA e reduzindo o tempo de execução através da coleta de dados através do método Delphi adaptado. Outro ponto relevante foi o treinamento da equipe que integraria o grupo de trabalho, isso acelerou a curva de aprendizado do time.
A aplicação do método Delphi em três rodadas foi adequada, mas em alguns processos não foi obtida a unanimidade e/ou consenso sendo a opinião da maioria incluída no resultado na BIA. O autor não sugere que novas rodadas, além das três inicialmente propostas, sejam executadas uma vez que a terceira e última foi executada com discussões abertas e podem haver processos onde o consenso de 100% dos participantes não seja obtido apenas pela inclusão de rodadas adicionais sem discussão como preconiza o método Delphi não adaptado.
O levantamento de custos, inicialmente idealizado para ser a fase 4 da metodologia, poderia ser adiantado para que no momento da coleta de dados, em especial na terceira rodada, mais dados estejam disponíveis enriquecendo a discussão entre os gestores.
O produto final metodológico criado neste trabalho pode ser aplicado em inúmeros outros negócios além de hospitais, onde não exista uma metodologia sendo aplicada e o negócio não possua orçamento disponível para contratação de consultoria especializada.
Como um modelo inicial, a fim de se ganhar mais maturidade na gestão da análise de impacto do negócio e plano de continuidade, o modelo pode ser considerado adequado sendo um primeiro passo para processos futuros mais robustos com separação clara entre a análise de impacto, gestão de riscos, plano de continuidade, planos de comunicação e planos de recuperação de desastre.
5 Referências
ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas. (2013). Segurança da sociedade — Sistema de gestão de continuidade de negócios – Requisitos. ABNT/CEE-68.
Batistela Junior, N., Macorin de Azevedo, M., Formigoni, A., & Manoel Souza das Neves, J. (2022). Hospital Quality and Performance Indicators: a validation with experts through the adapted DELPHI method. RESEARCH, SOCIETY AND DEVELOPMENT, 11(5).
Brás, J., & Guerreiro, S. (13 de 6 de 2016). DEMO Business Processes Design to Improve the Enterprise Business Continuity Plans. EOMAS@CAiSE. doi:10.1007/978-3-319-49454-8_11
Sikdar, P. (2017). Practitioner’s Guide to Business Impact Analysis. Boca Raton, FL: Taylor & Francis Group, LLC.
Ulrich, W., & Kuehn, W. (2015). BUSINESS ARCHITECTURE: SETTING THE RECORD STRAIGHT. Em W. Ulrich, F. Kowalkowski, G. Laware, M. Poulin, & K. Swenson, Business and Dynamic Change: The Arrival of Business Architecture. Future Strategies.
Vamos trocar experiências?
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